Aquele perfume não lhe era
indiferente. Uma mistura de fumo de cigarrilhas, aromas boémios no contraste de
manhãs submersas, os cheiros dos homens e das mulheres perdidas e achadas em calçadas
pouco iluminadas. À beira da estrada, sorria aos carros, que não paravam para
lhe perguntarem o custo de um fugaz aquecimento corporal.
Ondulado o corpo, encaracolado nos cabelos dos homens que a tentavam beijar, como carícias extras. Ternuras que fugiam para outro corpo, enquanto os cabelos agora emaranhados, salpicavam de ouro, as mãos ora rudes, ora delicadas, dos homens das carícias. Fixava o olhar dorido do afago. E esperava que os corpos sossegassem.
Ondulado o corpo, encaracolado nos cabelos dos homens que a tentavam beijar, como carícias extras. Ternuras que fugiam para outro corpo, enquanto os cabelos agora emaranhados, salpicavam de ouro, as mãos ora rudes, ora delicadas, dos homens das carícias. Fixava o olhar dorido do afago. E esperava que os corpos sossegassem.
Então, as palavras
proibidas. Entravam pelas mãos sem pedir permissão, entranhavam-se na pele, mordiam-lhe
os lábios pintados dum vermelho vivo que traziam recordações à luz dos dias por
madrugar.
Os perfumes que a faziam
abandonar-se assim, a carícias anónimas e ocultas, vinham sempre de homens mais
velhos, que se tornavam dependentes dela e ficavam íntimos e secretos, os quais
massacrava, numa curiosidade mórbida, a querer saber e a rotular os amores e os
odores de cada um.
Eram os aromas das
colónias de marca (Aramis colou-se-lhe às carnes ainda rosadas e firmes) das
pastas de pele envelhecida, o adocicado dos cachimbos, o inolvidável das braceletes
de couro dos relógios que se esqueciam de tirar antes de a deitarem no colo, o
hálito dos bourbons envelhecidos em
cascos de carvalho, o aroma a tinta permanente e a livros antigos…
Os fatos de corte elegante
tinham um aroma especial, numa mistura de tecido e suor que combinava com as
gravatas de seda com que a amarravam e vendavam, deixando-lhe no rosto o cheiro
inconfundível do desejo.
Cheira a roupa engomada. Morna. E
a florestas. E a cogumelos silvestres.
Cheira a ti, e a ti, a cada um deles,
que se destacam de todos, pelos perfumes que deixaram, em decalque na pele
albaroada, de cada vez que os aromas se misturavam: suor, lágrimas e cada um dos
que não identificava, talvez porque ainda tem na boca o sabor a tabaco do
último beijo que permitiu ser o primeiro.