sábado

Nude



Suavemente escrevo os meus lábios nos teus, para me ler em ti.

As janelas inundadas de lágrimas, chuva torrencial de letras vivas, numa estrada sem sentidos proibidos, onde me levas todas as noites num passeio de carro. E as luzes da cidade soam a canções dos cd’s que trazes esteticamente espalhados no banco de trás. Como se fossem pétalas de flores roubadas.

O meu peito respira quase fora do decote da camisa, em sobressalto e impele-te a acelerar nesta estrada sem fim, onde as cidades iluminadas vão ficando para trás, ou correm lado a lado connosco, numa cumplicidade de aroma a baunilha, sabor a cigarrilha e tanto, tanto de mim.

Não cedo ao impulso que me caracteriza e de olhos semicerrados, ouço-te sem te escutar, atenta ao momento em que a magia sucumbirá aos meus desejos ocultos.

Então, não sei se me achas impossível, ou se não gostamos da mesma música, porque nem tentas alcançar-me.

O vento empurra violentamente, as palavras engasgadas. Abandona-as nos reposteiros de veludo dum quarto inventado, e decalca-as no meu corpo nu, em segredos sussurrados, como se fossem carícias. Silhuetas recortadas pela geometria do teu beijo cinematográfico. Na curvatura do joelho, o gesto suspenso, dedos que transpiram desejos. Mas não ousam.

Mãos que não se deram, poemas que se foram... em olhares aguados para nos perdermos de nós...

...E os meus cabelos, agora mais dourados pelo sol da meia-noite, seduzem-te em segredo, sempre que te penso.