Suavemente
escrevo os meus lábios nos teus, para me ler em ti.
As
janelas inundadas de lágrimas, chuva torrencial de letras vivas, numa estrada
sem sentidos proibidos, onde me levas todas as noites num passeio de carro. E
as luzes da cidade soam a canções dos cd’s que trazes esteticamente espalhados
no banco de trás. Como se fossem pétalas de flores roubadas.
O
meu peito respira quase fora do decote da camisa, em sobressalto e impele-te a acelerar nesta estrada sem fim, onde as cidades iluminadas vão ficando para
trás, ou correm lado a lado connosco, numa cumplicidade de aroma a baunilha, sabor a
cigarrilha e tanto, tanto de mim.
Não cedo
ao impulso que me caracteriza e de olhos semicerrados, ouço-te sem te escutar,
atenta ao momento em que a magia sucumbirá aos meus desejos ocultos.
Então,
não sei se me achas impossível, ou se não gostamos da mesma música, porque nem
tentas alcançar-me.
O
vento empurra violentamente, as palavras engasgadas. Abandona-as nos
reposteiros de veludo dum quarto inventado, e decalca-as no meu corpo nu, em
segredos sussurrados, como se fossem carícias. Silhuetas recortadas pela
geometria do teu beijo cinematográfico. Na curvatura do joelho, o gesto
suspenso, dedos que transpiram desejos. Mas não ousam.
Mãos
que não se deram, poemas que se foram... em olhares aguados para
nos perdermos de nós...
...E
os meus cabelos, agora mais dourados pelo sol da meia-noite, seduzem-te em
segredo, sempre que te penso.