... O estrondo de luz trouxe-mo do deambular catatónico em que a música me
veste sempre que a tua memória insiste em fermentar silêncios ou apenas
sonhar-me naufrágio em tons magenta como as horas que guardo nocorpo acordadoa sete chaves de vidro, como alicerces de águas par(a)das de sombrasque nos
mastigam demoradamente, como um farol iluminado que cega o poeta desprevenido,
fervendo emoções que doem porque assomam espectros desesperados num bairro de
letras cem palavras e antes que a noite chegue, acendo um cigarro
que não fumo.
O barco balança. Sento-me, pés
balançando borda fora, mãos a fazer pala nos olhos, a ver o que a vista
alcança.Sento-me numa escravidão de beijos apurados no fundo do mar.Sinto-me
prisioneira deste amor que não quero soltar.Terra à vista, numa imensidão de
florestas que crescem em silêncio.Num estertor de golfadas de sangue a arder.O meu peito,onde as andorinhas hão-de fazer os ninhos e as tuas mãos deixam carícias.A arder. O ventre a soltar gemidos do filho a nascer.
A dor é lastro.A palavra
proibida. O toque mágico. A pele cingida à tua, em bebedeiras de mar. Meu amor,
a distância é febre a gelar. E eu sem saber esperar.
As músicas trazem-me notícias
tuas, num suave respirar, como se chegasses, sem nunca teres partido.
Sopro-te a minha boca em delírio
da tua. E o teu amo-te gritado, é maior do que o que cabe no coração.
As raízes arrastam-me para o
convés do barco à deriva onde me esperas com o teu sorriso aguado de gulodice, a
tentares vislumbrar-me entre as folhagens das árvores que também me enlaçam com
os ramos, a caminho da terra mãe.
Vemo-nos.E sufoco um soluço no
corpo a ondular o desejo.