quarta-feira

The princess



respiro o silêncio. dói-me a noite parada em que grito para sentir que estou viva. 
a saudade deita-se entre soluços e dentro de mim navegam lágrimas que ardem lentamente.

fecho os olhos. estou triste e tenho frio. a música desce a escada de mármore que me distancia das árvores despidas de mim e eu vestida de princesa, os cabelos entrançados, adourados pelo teu pentear. e o teu colo com perfume de mãe.

esqueço-me da menina de tranças que passeava ao lado do homem alto e elegante, que lhe magoava a mão com o anel, quando a apertava, ao atravessarem a rua. do ritual de bater o cigarro na cigarreira de prata. a inclinação do corpo a proteger do vento, o isqueiro aceso. 

esqueço-me de tudo. dos amores e paixões. dos dias felizes. dos amigos. esqueço-me das árvores que plantei, dos livros que escrevi. do milagre de ser mãe. da candura de ser avó.
esqueço-me de quem me ama. e nem reconheço quem amo.

cheiro o meu cabelo, numa busca de madeixas que não caíram. dói-me o estômago fatigado. esqueço a dor, mergulho no mar que leva às florestas onde a morte se esconde e me espera. de pé.

atravesso a profundidade da memória, direita à pele da alma em fuga.

sou a menina das tranças douradas. do tempo em que as maçãs eram mais doces. 

esqueço-me ...

…e não me lembro de mim, mulher.