respiro o silêncio. dói-me a
noite parada em que grito para sentir que estou viva.
a saudade deita-se entre soluços
e dentro de mim navegam lágrimas que ardem lentamente.
fecho os olhos. estou triste e tenho
frio. a música desce a escada de mármore que me distancia das árvores despidas
de mim e eu vestida de princesa, os cabelos entrançados, adourados pelo teu
pentear. e o teu colo com perfume de mãe.
esqueço-me da menina de tranças
que passeava ao lado do homem alto e elegante, que lhe magoava a mão com o
anel, quando a apertava, ao atravessarem a rua. do ritual de bater o cigarro na
cigarreira de prata. a inclinação do corpo a proteger do vento, o isqueiro
aceso.
esqueço-me de tudo. dos amores e paixões. dos dias felizes. dos amigos. esqueço-me
das árvores que plantei, dos livros que escrevi. do milagre de ser mãe. da candura
de ser avó.
esqueço-me de quem me ama. e nem
reconheço quem amo.
cheiro o meu cabelo, numa busca
de madeixas que não caíram. dói-me o estômago fatigado. esqueço a dor, mergulho
no mar que leva às florestas onde a morte se esconde e me espera. de pé.
atravesso a profundidade da
memória, direita à pele da alma em fuga.
sou a menina das tranças douradas. do tempo em que as maçãs eram mais doces.
esqueço-me ...
…e não me lembro de mim, mulher.