pés nus com que Te pisa a alma de peScador.
uma só lágrima na perplexidade do óbvio.
inventou-Te nas
noites de solidão, fins de tarde que não lusco fusco.não.
que sabes Tu do
lusco fusco ao entardecer nas mãos dos homens que amam de perdição?
decide apagar-Te
da imaginação rodeada de desertoscom
que conquistas corações solitários. e sombrios. que A desinteressam. e A
fatigam.
a Ti, assusta-te
A sua impulsividade. e assim A vais
perdendo sem A teres tido. numa convulsão de perguntas de quem sabe
as respostas.
escreve sem modificar, compulsivamente,
presA ao primeiro instante com que O sente.
fecha o olhos a saborear o
que parece ter sido real: um beijo de cinema, demorado na rapidez da fuga…
saboreado, só depois, no recordar, nublado e aromatizado pela cigarrilha, com a imagem aprisionada nos lábios com lábios, no sentir de quem filma.
Deixou-O ir. Deixou-O rir. Deixou-O.
agora é que foi mesmo o fim.
do que nunca começou.
respiro o silêncio. dói-me a
noite parada em que grito para sentir que estou viva.
a saudade deita-se entre soluços
e dentro de mim navegam lágrimas que ardem lentamente.
fecho os olhos. estou triste e tenho
frio. a música desce a escada de mármore que me distancia das árvores despidas
de mim e eu vestida de princesa, os cabelos entrançados, adourados pelo teu
pentear. e o teu colo com perfume de mãe.
esqueço-me da menina de tranças
que passeava ao lado do homem alto e elegante, que lhe magoava a mão com o
anel, quando a apertava, ao atravessarem a rua. do ritual de bater o cigarro na
cigarreira de prata. a inclinação do corpo a proteger do vento, o isqueiro
aceso.
esqueço-me de tudo. dos amores e paixões. dos dias felizes. dos amigos. esqueço-me
das árvores que plantei, dos livros que escrevi. do milagre de ser mãe. da candura
de ser avó.
esqueço-me de quem me ama. e nem
reconheço quem amo.
cheiro o meu cabelo, numa busca
de madeixas que não caíram. dói-me o estômago fatigado. esqueço a dor, mergulho
no mar que leva às florestas onde a morte se esconde e me espera. de pé.
atravesso a profundidade da
memória, direita à pele da alma em fuga.
sou a menina das tranças douradas. do tempo em que as maçãs eram mais doces.
transverso-me na verticalidade da
subida ao teu ser. desconstróis-me na liquidez fatal dum inverno súbito.
queima muito esta dor rente à
minha carne consagrada na confissão ensanguentada das vísceras que corroem a aventura
na pele que já foi marfim no desbravamento.explosão de palavras malditas...escritas,
sem se poderem apagar da memória de quem leu.
és só tu contigo e com quem desconheço.
e embalo a corrosão dos dias sem afagos.
são silêncios e são espasmos translúcidos.
desencontros cinematográficos que o sorriso disfarça.
sinto o teu gesto no olhar que
não cruzas. os braços sem abraçar. quietos na expectativa do movimento de [me]
experimentares. o pudor não me permite tocar-te. apenas trocar palavras e
olhares cegos. de música. no telúrico dos momentos.
paixão. tantas vezes paixão nas
cidades que nos aguardam.
a minha exigência faz-se de segredos adivinhados sem te saber.
espero ouvir-te e aquieto-me no
desassossego que não é livro. apenas livre de te conhecer.
Aquele perfume não lhe era
indiferente. Uma mistura de fumo de cigarrilhas, aromas boémios no contraste de
manhãs submersas, os cheiros dos homens e das mulheres perdidas e achadas em calçadas
pouco iluminadas. À beira da estrada, sorria aos carros, que não paravam para
lhe perguntarem o custo de um fugaz aquecimento corporal. Ondulado o corpo,
encaracolado nos cabelos dos homens que a tentavam beijar, como carícias extras.
Ternuras que fugiam para outro corpo, enquanto os cabelos agora emaranhados,
salpicavam de ouro, as mãos ora rudes, ora delicadas, dos homens das carícias. Fixava
o olhar dorido do afago. E esperava que os corpos sossegassem.
Então, as palavras
proibidas. Entravam pelas mãos sem pedir permissão, entranhavam-se na pele, mordiam-lhe
os lábios pintados dum vermelho vivo que traziam recordações à luz dos dias por
madrugar.
Os perfumes que a faziam
abandonar-se assim, a carícias anónimas e ocultas, vinham sempre de homens mais
velhos, que se tornavam dependentes dela e ficavam íntimos e secretos, os quais
massacrava, numa curiosidade mórbida, a querer saber e a rotular os amores e os
odores de cada um.
Eram os aromas das
colónias de marca (Aramis colou-se-lhe às carnes ainda rosadas e firmes) das
pastas de pele envelhecida, o adocicado dos cachimbos, o inolvidável das braceletes
de couro dos relógios que se esqueciam de tirar antes de a deitarem no colo, o
hálito dos bourbons envelhecidos em
cascos de carvalho, o aroma a tinta permanente e a livros antigos…
Os fatos de corte elegante
tinham um aroma especial, numa mistura de tecido e suor que combinava com as
gravatas de seda com que a amarravam e vendavam, deixando-lhe no rosto o cheiro
inconfundível do desejo.
Cheira a roupa engomada. Morna. E
a florestas. E a cogumelos silvestres.
Cheira a ti, e a ti, a cada um deles,
que se destacam de todos, pelos perfumes que deixaram, em decalque na pele
albaroada, de cada vez que os aromas se misturavam:suor, lágrimas e cada um dos
que não identificava, talvez porque ainda tem na boca o sabor a tabaco do
último beijo que permitiu ser o primeiro.