quinta-feira

Tear In Your Hand



música nas fendas rochosas do sorrir ao vento. 
pés nus com que Te pisa a alma de peScador. uma só lágrima na perplexidade do óbvio.

inventou-Te nas noites de solidão, fins de tarde que não lusco fusco. não.

que sabes Tu do lusco fusco ao entardecer nas mãos dos homens que amam de perdição?

decide apagar-Te da imaginação rodeada de desertos  com que conquistas corações solitários. e sombrios. que A desinteressam. e A fatigam.

a Ti, assusta-te A sua impulsividade. e assim A vais perdendo sem A teres tido. numa convulsão de perguntas de quem sabe as respostas.

escreve sem modificar, compulsivamente, presA ao primeiro instante com que O sente.

fecha o olhos a saborear o que parece ter sido real: um beijo de cinema, demorado na rapidez da fuga… saboreado, só depois, no recordar, nublado e aromatizado pela cigarrilha, com a imagem aprisionada nos lábios com lábios, no sentir de quem filma.

Deixou-O ir. Deixou-O rir. Deixou-O.


agora é que foi mesmo o fim. do que nunca começou.


quarta-feira

The princess



respiro o silêncio. dói-me a noite parada em que grito para sentir que estou viva. 
a saudade deita-se entre soluços e dentro de mim navegam lágrimas que ardem lentamente.

fecho os olhos. estou triste e tenho frio. a música desce a escada de mármore que me distancia das árvores despidas de mim e eu vestida de princesa, os cabelos entrançados, adourados pelo teu pentear. e o teu colo com perfume de mãe.

esqueço-me da menina de tranças que passeava ao lado do homem alto e elegante, que lhe magoava a mão com o anel, quando a apertava, ao atravessarem a rua. do ritual de bater o cigarro na cigarreira de prata. a inclinação do corpo a proteger do vento, o isqueiro aceso. 

esqueço-me de tudo. dos amores e paixões. dos dias felizes. dos amigos. esqueço-me das árvores que plantei, dos livros que escrevi. do milagre de ser mãe. da candura de ser avó.
esqueço-me de quem me ama. e nem reconheço quem amo.

cheiro o meu cabelo, numa busca de madeixas que não caíram. dói-me o estômago fatigado. esqueço a dor, mergulho no mar que leva às florestas onde a morte se esconde e me espera. de pé.

atravesso a profundidade da memória, direita à pele da alma em fuga.

sou a menina das tranças douradas. do tempo em que as maçãs eram mais doces. 

esqueço-me ...

…e não me lembro de mim, mulher.

terça-feira

Cigarette Burns




transverso-me na verticalidade da subida ao teu ser. desconstróis-me na liquidez fatal dum inverno súbito.

queima muito esta dor rente à minha carne consagrada na confissão ensanguentada das vísceras que corroem a aventura na pele que já foi marfim no desbravamento. explosão de palavras malditas...escritas, sem se poderem apagar da memória de quem leu.

és só tu contigo e com quem desconheço. e embalo a corrosão dos dias sem afagos.

são silêncios e são espasmos translúcidos. desencontros cinematográficos que o sorriso disfarça.

sinto o teu gesto no olhar que não cruzas. os braços sem abraçar. quietos na expectativa do movimento de [me] experimentares. o pudor não me permite tocar-te. apenas trocar palavras e olhares cegos. de música. no telúrico dos momentos.

paixão. tantas vezes paixão nas cidades que nos aguardam.

a minha exigência faz-se de segredos adivinhados sem te saber.

espero ouvir-te e aquieto-me no desassossego que não é livro. apenas livre de te conhecer.


mãos cheias de ti. e não tenho nada.

quarta-feira

He didn't



Aquele perfume não lhe era indiferente. Uma mistura de fumo de cigarrilhas, aromas boémios no contraste de manhãs submersas, os cheiros dos homens e das mulheres perdidas e achadas em calçadas pouco iluminadas. À beira da estrada, sorria aos carros, que não paravam para lhe perguntarem o custo de um fugaz aquecimento corporal.

Ondulado o corpo, encaracolado nos cabelos dos homens que a tentavam beijar, como carícias extras. Ternuras que fugiam para outro corpo, enquanto os cabelos agora emaranhados, salpicavam de ouro, as mãos ora rudes, ora delicadas, dos homens das carícias. Fixava o olhar dorido do afago. E esperava que os corpos sossegassem.

Então, as palavras proibidas. Entravam pelas mãos sem pedir permissão, entranhavam-se na pele, mordiam-lhe os lábios pintados dum vermelho vivo que traziam recordações à luz dos dias por madrugar.

Os perfumes que a faziam abandonar-se assim, a carícias anónimas e ocultas, vinham sempre de homens mais velhos, que se tornavam dependentes dela e ficavam íntimos e secretos, os quais massacrava, numa curiosidade mórbida, a querer saber e a rotular os amores e os odores de cada um.

Eram os aromas das colónias de marca (Aramis colou-se-lhe às carnes ainda rosadas e firmes) das pastas de pele envelhecida, o adocicado dos cachimbos, o inolvidável das braceletes de couro dos relógios que se esqueciam de tirar antes de a deitarem no colo, o hálito dos bourbons envelhecidos em cascos de carvalho, o aroma a tinta permanente e a livros antigos…

Os fatos de corte elegante tinham um aroma especial, numa mistura de tecido e suor que combinava com as gravatas de seda com que a amarravam e vendavam, deixando-lhe no rosto o cheiro inconfundível do desejo.


Cheira a roupa engomada. Morna. E a florestas. E a cogumelos silvestres. 

Cheira a ti, e a ti, a cada um deles, que se destacam de todos, pelos perfumes que deixaram, em decalque na pele albaroada, de cada vez que os aromas se misturavam: suor, lágrimas e cada um dos que não identificava, talvez porque ainda tem na boca o sabor a tabaco do último beijo que permitiu ser o primeiro.



quinta-feira

Thirsty Man



Inquieta a boca desiludida imaculada no restolho dos dias sem cor.

torturado o rosto cansado agora dasabitado do seu olhar
como se o fumo fosse névoa e os dedos cigarrilhas apagadas, húmidas, estragadas

recordou-o poema no limite da convergência dos verbos

acreditou-o tão seu, tão perto, tão tudo
acreditou-o príncipe das marés

acreditou-o

depois, num rasgo de orfandade inequívoca, chorou-o em vagas de espuma, ventre esvaziado de concepção seminal

chorou-o para além da sua ausência no corpo onde a vida lhe escorregava

chorou-o com um brilho de sal no olhar a esmorecer de dor


chorou-o como se o bebesse em sombras de águas límpidas...

... chora-o ainda.