O
paladar das palavras no hálito cinza de laranjas[per]fumadas.
Penteia
o cabelo para dourar os dias. Rebentos de solidão trincados, sempre que o
medronho escorre ardente__________a boca de lábios entreabertos.
Excede-se
nas reticências, curva o corpo. A submissão
a
[s]
c
e
n
d
e o olhar de revolta. Em
prazer sublimado pela obediência.
Beber-te em cascatas
de amor vadio. Vagabundo.
Amanhece(r)
numa explosão de luzes na arquitectura fascinante de montes e vales
_____________ verdes___ na inquietude dos sentidos do chilreio dos pássaros que
navegam na cor líquida dos (meus) olhos.
Tão
órfã. Nesta solidão de multidões em que os dias ecoam no peito, vazios de
ternura.
Resgata-se
num quebranto, onde arquiva memórias. De chuva que envolve _______________ a
alvura da lua cheia de mim e de ti.
Existes em sedução
no olhar que fixas no meu.Nesse sussurro, com que enfeitiças a minha vontade
de te obedecer. Felino, sabes todas as palavras que necessito de escutar, para
que continue a respirar-TE música.
Ofereço-me no desejo de fêmea com que me
penetras a alma.
Cedo-me
irrepreensível à humidade do teu corpo de chuva dourada.
Cedo, encostada à
parede sem espada, apenas tu e o sabor dos meus desejos, com que me respondes a
todas as perguntas que não ouso fazer. Para que nunca saibas como és importante
para mim.
A preguiça
espraiada na arte de contemplar.Os fluídos segregados em silêncio, só porque a
tua voz de comando, ecoa no meu cérebro.Sabes a baunilha, enquanto me perco
num filme, para além da aquosidade dos sentidos.
Escrevo
coisas de mim, nas memória que o tempo me deixa, bafejadas pelo teu hálito a café, cachimbo perfumado, chás do deserto.
Desenhou-se cubo, face ao vento, aresta encostada a uma árvore e vértice a tocar o poema que é a voz dele sempre que a seiva lhe escorre dos lábios, em tom de ordem.
Suavemente
escrevo os meus lábios nos teus, para me ler em ti.
As
janelas inundadas de lágrimas, chuva torrencial de letras vivas, numa estrada
sem sentidos proibidos, onde me levas todas as noites num passeio de carro. E
as luzes da cidade soam a canções dos cd’s que trazes esteticamente espalhados
no banco de trás. Como se fossem pétalas de flores roubadas.
O
meu peito respira quase fora do decote da camisa, em sobressalto e impele-te a acelerar nesta estrada sem fim, onde as cidades iluminadas vão ficando para
trás, ou correm lado a lado connosco, numa cumplicidade de aroma a baunilha, sabor a
cigarrilha e tanto, tanto de mim.
Não cedo
ao impulso que me caracteriza e de olhos semicerrados, ouço-te sem te escutar,
atenta ao momento em que a magia sucumbirá aos meus desejos ocultos.
Então,
não sei se me achas impossível, ou se não gostamos da mesma música, porque nem
tentas alcançar-me.
O
vento empurra violentamente, as palavras engasgadas.Abandona-as nos
reposteiros de veludo dum quarto inventado, e decalca-as no meu corpo nu, em
segredos sussurrados, como se fossem carícias.Silhuetas recortadas pela
geometria do teu beijo cinematográfico. Na curvatura do joelho, o gesto
suspenso, dedos que transpiram desejos. Mas não ousam.
Mãos
que não se deram, poemas que se foram... em olhares aguados para
nos perdermos de nós...
...E
os meus cabelos, agora mais dourados pelo sol da meia-noite, seduzem-te em
segredo, sempre que te penso.
Chuva morna como beijos de
despedida. Ela olhou a estrada de cimento que se perdia no infinito do verbo.Ir sem olhar para trás, sem acenar um adeus, gesto suspenso, cristalizado pelo
sabor da boca que não ficou a saber.
Olho-te. O aroma da tua água-de-colónia
entranhado no lugar que deixas habitado de hálito e suor. E sorrisos
escondidos, excusos e completos de escrita de olhos fechados.
A invisibilidade tocada.O teu
olhar leva o meu a ver as luzes das cidades percorridas em velocidade de
espanto, mais devagar agora, para absorver sons, tons, sabores de ti, TU que não te dás, nem te emprestas.
Todos os dia hei-de saber de ti. Todos os dias hei-de telefonar-te, sem falar. Boca seca de palavras interditas. A adivinhar-te os caminhos sinuosos, de lascívia e perdição, duma quase promiscuidade que fascina. A adivinhar-te nas entre-linhas que constróis para que te entenda. Estórias tuas e minhas, que jamais serão nossas.
Sem olhares para trás, desapareces na esquina do quarteirão.
E no teu peito, a minha mão.
terça-feira
sons que espessam o sangue
assim
___________só de o respirar na inexorabilidade do momento.
... O estrondo de luz trouxe-mo do deambular catatónico em que a música me
veste sempre que a tua memória insiste em fermentar silêncios ou apenas
sonhar-me naufrágio em tons magenta como as horas que guardo nocorpo acordadoa sete chaves de vidro, como alicerces de águas par(a)das de sombrasque nos
mastigam demoradamente, como um farol iluminado que cega o poeta desprevenido,
fervendo emoções que doem porque assomam espectros desesperados num bairro de
letras cem palavras e antes que a noite chegue, acendo um cigarro
que não fumo.
O barco balança. Sento-me, pés
balançando borda fora, mãos a fazer pala nos olhos, a ver o que a vista
alcança.Sento-me numa escravidão de beijos apurados no fundo do mar.Sinto-me
prisioneira deste amor que não quero soltar.Terra à vista, numa imensidão de
florestas que crescem em silêncio.Num estertor de golfadas de sangue a arder.O meu peito,onde as andorinhas hão-de fazer os ninhos e as tuas mãos deixam carícias.A arder. O ventre a soltar gemidos do filho a nascer.
A dor é lastro.A palavra
proibida. O toque mágico. A pele cingida à tua, em bebedeiras de mar. Meu amor,
a distância é febre a gelar. E eu sem saber esperar.
As músicas trazem-me notícias
tuas, num suave respirar, como se chegasses, sem nunca teres partido.
Sopro-te a minha boca em delírio
da tua. E o teu amo-te gritado, é maior do que o que cabe no coração.
As raízes arrastam-me para o
convés do barco à deriva onde me esperas com o teu sorriso aguado de gulodice, a
tentares vislumbrar-me entre as folhagens das árvores que também me enlaçam com
os ramos, a caminho da terra mãe.
Vemo-nos.E sufoco um soluço no
corpo a ondular o desejo.
pés nus com que Te pisa a alma de peScador.
uma só lágrima na perplexidade do óbvio.
inventou-Te nas
noites de solidão, fins de tarde que não lusco fusco.não.
que sabes Tu do
lusco fusco ao entardecer nas mãos dos homens que amam de perdição?
decide apagar-Te
da imaginação rodeada de desertoscom
que conquistas corações solitários. e sombrios. que A desinteressam. e A
fatigam.
a Ti, assusta-te
A sua impulsividade. e assim A vais
perdendo sem A teres tido. numa convulsão de perguntas de quem sabe
as respostas.
escreve sem modificar, compulsivamente,
presA ao primeiro instante com que O sente.
fecha o olhos a saborear o
que parece ter sido real: um beijo de cinema, demorado na rapidez da fuga…
saboreado, só depois, no recordar, nublado e aromatizado pela cigarrilha, com a imagem aprisionada nos lábios com lábios, no sentir de quem filma.
Deixou-O ir. Deixou-O rir. Deixou-O.
agora é que foi mesmo o fim.
do que nunca começou.
respiro o silêncio. dói-me a
noite parada em que grito para sentir que estou viva.
a saudade deita-se entre soluços
e dentro de mim navegam lágrimas que ardem lentamente.
fecho os olhos. estou triste e tenho
frio. a música desce a escada de mármore que me distancia das árvores despidas
de mim e eu vestida de princesa, os cabelos entrançados, adourados pelo teu
pentear. e o teu colo com perfume de mãe.
esqueço-me da menina de tranças
que passeava ao lado do homem alto e elegante, que lhe magoava a mão com o
anel, quando a apertava, ao atravessarem a rua. do ritual de bater o cigarro na
cigarreira de prata. a inclinação do corpo a proteger do vento, o isqueiro
aceso.
esqueço-me de tudo. dos amores e paixões. dos dias felizes. dos amigos. esqueço-me
das árvores que plantei, dos livros que escrevi. do milagre de ser mãe. da candura
de ser avó.
esqueço-me de quem me ama. e nem
reconheço quem amo.
cheiro o meu cabelo, numa busca
de madeixas que não caíram. dói-me o estômago fatigado. esqueço a dor, mergulho
no mar que leva às florestas onde a morte se esconde e me espera. de pé.
atravesso a profundidade da
memória, direita à pele da alma em fuga.
sou a menina das tranças douradas. do tempo em que as maçãs eram mais doces.
transverso-me na verticalidade da
subida ao teu ser. desconstróis-me na liquidez fatal dum inverno súbito.
queima muito esta dor rente à
minha carne consagrada na confissão ensanguentada das vísceras que corroem a aventura
na pele que já foi marfim no desbravamento.explosão de palavras malditas...escritas,
sem se poderem apagar da memória de quem leu.
és só tu contigo e com quem desconheço.
e embalo a corrosão dos dias sem afagos.
são silêncios e são espasmos translúcidos.
desencontros cinematográficos que o sorriso disfarça.
sinto o teu gesto no olhar que
não cruzas. os braços sem abraçar. quietos na expectativa do movimento de [me]
experimentares. o pudor não me permite tocar-te. apenas trocar palavras e
olhares cegos. de música. no telúrico dos momentos.
paixão. tantas vezes paixão nas
cidades que nos aguardam.
a minha exigência faz-se de segredos adivinhados sem te saber.
espero ouvir-te e aquieto-me no
desassossego que não é livro. apenas livre de te conhecer.
Aquele perfume não lhe era
indiferente. Uma mistura de fumo de cigarrilhas, aromas boémios no contraste de
manhãs submersas, os cheiros dos homens e das mulheres perdidas e achadas em calçadas
pouco iluminadas. À beira da estrada, sorria aos carros, que não paravam para
lhe perguntarem o custo de um fugaz aquecimento corporal. Ondulado o corpo,
encaracolado nos cabelos dos homens que a tentavam beijar, como carícias extras.
Ternuras que fugiam para outro corpo, enquanto os cabelos agora emaranhados,
salpicavam de ouro, as mãos ora rudes, ora delicadas, dos homens das carícias. Fixava
o olhar dorido do afago. E esperava que os corpos sossegassem.
Então, as palavras
proibidas. Entravam pelas mãos sem pedir permissão, entranhavam-se na pele, mordiam-lhe
os lábios pintados dum vermelho vivo que traziam recordações à luz dos dias por
madrugar.
Os perfumes que a faziam
abandonar-se assim, a carícias anónimas e ocultas, vinham sempre de homens mais
velhos, que se tornavam dependentes dela e ficavam íntimos e secretos, os quais
massacrava, numa curiosidade mórbida, a querer saber e a rotular os amores e os
odores de cada um.
Eram os aromas das
colónias de marca (Aramis colou-se-lhe às carnes ainda rosadas e firmes) das
pastas de pele envelhecida, o adocicado dos cachimbos, o inolvidável das braceletes
de couro dos relógios que se esqueciam de tirar antes de a deitarem no colo, o
hálito dos bourbons envelhecidos em
cascos de carvalho, o aroma a tinta permanente e a livros antigos…
Os fatos de corte elegante
tinham um aroma especial, numa mistura de tecido e suor que combinava com as
gravatas de seda com que a amarravam e vendavam, deixando-lhe no rosto o cheiro
inconfundível do desejo.
Cheira a roupa engomada. Morna. E
a florestas. E a cogumelos silvestres.
Cheira a ti, e a ti, a cada um deles,
que se destacam de todos, pelos perfumes que deixaram, em decalque na pele
albaroada, de cada vez que os aromas se misturavam:suor, lágrimas e cada um dos
que não identificava, talvez porque ainda tem na boca o sabor a tabaco do
último beijo que permitiu ser o primeiro.