domingo

Para sempre.




Estendeu os pulsos aquecidos pelos lábios dele, esqueceu o coração que se esvaía em olhares, contornou a tarde que descia sobre a casa de janelas abertas à paz que não ouvia.

Ofereceu-lhe as costas nuas, onde ele lhe escrevia poemas sempre que o papel se acabava, papel reciclado, tacteado pelas pupilas dilatadas e douradas pelos lábios que eram sorriso ou então apenas boca. 

Escorreu palavras inventadas ao instante do grito com que rasgava as noite sempre que a música era chuva, neve ou apenas suor sem sal.

O vazio com que enchia a vida sangrando em silêncio. A língua mastigada pela solidão.

Ela espreitou sobre o ombro, o ruído invisível da caneta de tinta permanente na pele. Escrita a vermelho sangue. O seu. Saliva que apagava enganos, rasuras por vezes, num arranhar repetido, esborratado.

Então, ele tomou-a nos braços, já pálida e inerte, enquanto lhe sussurrava ar, num apego de memórias.

Num poema inacabado, amaldiçoou a falta de tinta. Sentou-se entre parêntesis, até as reticências o dominarem.

Só depois lhe sentiu a falta, na carne flácida, antes do rigor mortis.