segunda-feira

Don't forget to pray...

 

deixei o amor  na mesa do bloco operatório, embrulhado em compressas de iodo, assépticos e sangue.
pés descalços na frigidez do mármore onde flutuam pedaços de pele e carne, que descubro serem meus, sem no entanto perceber o que me falta...
águas de placenta rebentadas com seringas de pus, arrastadeiras do mesmo frio metálico das tigelas onde servem almoços na cantina.

inalo anestesia que me sabe a cola uhu, engulo tesouras, bisturis e uma luva de látex acorda-me para recordações mais dolorosas que as do último aborto a frio.
comprimidos esmagados com os calcanhares, trincados como as unhas destas mãos de menina, pó de anjo, viajo, sem querer regressar.

soergo-me com o ventre aberto, os embriões multiplicaram-se enquanto o sangue esguichava as paredes pálidas de tão brancas deste hospício onde me encerraram depois de descoberta a dor maior, que as mais pequenas nunca são do tamanho do lado de lá da lua, lugar onde habito sem memórias, sem odores ou cores e os sabores, também esquecidos são brilho vítreo do meu olhar de despedida não anunciada. desejada. como uma réstia de sol na pele sem idade.

escrevo-te uma carta sem nexo, porque as letras fogem-me da coerência de querer formar palavras, escrevo-te, penso eu, mas afinal desenho-te um labirinto que é o meu cérebro, caminho para chegares a mim, pois não sei onde estou, nem como aqui cheguei.

(de noite, quando sonho acordada) numa cama que é chão, sinto umas mãos que me penteiam e me afastam as farripas (outrora franja louro mel brilhante) dos meus olhos. mãos que não sei se são minhas se tuas.

doce amnésia que me faz esquecer de mim.