domingo

Paranoid


suspira veneno em folhas de chá. infusão de preces em lamentos de dores mais fortes que o cisco no olho ou areias movediças no corpo de espanto. que espanta as noites divertidas dos dias que antecedem as tardes tombadas penas de ave abandonada sorriso desenhado a lápis de cera a expressão contorcida em espasmo de injecção.

são azuis os fumos de nuvens no jardim onde se passeiam enfermeiros com coletes de força arrancados à dentada porque as unhas são roídas nas manhãs de assalto. que salto!  em altura do tamanho da sombra que o sol rouba.

cicatrizes que se abrem ao romper da aurora boreal em sangue visceral fígado novo precisa-se para que o pão levede. e cresça.

ensaia bocejos, e os lábios semicerrados de beijos.
alma cinza do cigarro a arder devagar. sem fumar.

e o amor pode ser roma se as palavras se inverterem. ou reclamarem em protesto divino de oração.


quarta-feira

Paris, Texas



acordas-me, mesmo sem ter dormido, com o teu ar infantil de anjo perdido.

as palavras são dardos de veneno puro batom transparente com que te escuto, entre sonhos, num choro de vergonha que me arde (n)a alma inútil como as notas de musica desfeitas das pautas amachucadas que trazes nos bolsos dos jeans, dum azul indig(N)o.

fecho os olhos, fecho a boca, até que a respiração me doa, fecho as mãos em punhos de raiva e dor, só porque as viagens são feitas nas tardes em que nas marés navegam cruzeiros e no cais, vagabundos sonham de boca aberta à fome que os alimenta.

náuseas e dores abertas agora aos fármacos que deixaram de fazer efeito.

as canções com que me venço são o infinito do caminho onde as pernas estacaram com o corpo moribundo de sede do teu amor imaturo, inconstante e viciante.

deixarei de dizer-te que te amo sempre que a dor me mate e tu acordas-me, mesmo sem ter dormido, com o teu olhar infantil de anjo perdido.

segunda-feira

Don't forget to pray...

 

deixei o amor  na mesa do bloco operatório, embrulhado em compressas de iodo, assépticos e sangue.
pés descalços na frigidez do mármore onde flutuam pedaços de pele e carne, que descubro serem meus, sem no entanto perceber o que me falta...
águas de placenta rebentadas com seringas de pus, arrastadeiras do mesmo frio metálico das tigelas onde servem almoços na cantina.

inalo anestesia que me sabe a cola uhu, engulo tesouras, bisturis e uma luva de látex acorda-me para recordações mais dolorosas que as do último aborto a frio.
comprimidos esmagados com os calcanhares, trincados como as unhas destas mãos de menina, pó de anjo, viajo, sem querer regressar.

soergo-me com o ventre aberto, os embriões multiplicaram-se enquanto o sangue esguichava as paredes pálidas de tão brancas deste hospício onde me encerraram depois de descoberta a dor maior, que as mais pequenas nunca são do tamanho do lado de lá da lua, lugar onde habito sem memórias, sem odores ou cores e os sabores, também esquecidos são brilho vítreo do meu olhar de despedida não anunciada. desejada. como uma réstia de sol na pele sem idade.

escrevo-te uma carta sem nexo, porque as letras fogem-me da coerência de querer formar palavras, escrevo-te, penso eu, mas afinal desenho-te um labirinto que é o meu cérebro, caminho para chegares a mim, pois não sei onde estou, nem como aqui cheguei.

(de noite, quando sonho acordada) numa cama que é chão, sinto umas mãos que me penteiam e me afastam as farripas (outrora franja louro mel brilhante) dos meus olhos. mãos que não sei se são minhas se tuas.

doce amnésia que me faz esquecer de mim.

terça-feira

Peregrinação


___________________________________num gesto displicente, atiras-me para uma gaveta onde me mantens cativa, embrulhada em meias e lingerie feminina, encerrada aos olhares de quem me pode amar_____________como se fosse fácil prenderes a paixão com que vibro dias e noites sem dormir mesmo que o sono tente vitórias insurrectas e insistentes.

sei que acordo em ti desejos que não me apetece satisfazer. só porque não. talvez para que entendas alguma coisa de mim, sem que to diga, pois apetece-me que me adivinhes, tu que já me devias saber de cor. e salteado, mesmo que se mantenha o mistério do meu olhar ausente que não sabe por onde andou quando regressa.

podes sempre caminhar descalço sobre as pedras dos Caminhos de Santiago, que percorro às vezes, sem saber que caminhos são, que não me levam a Santiago, nem a lugar algum, enquanto me manténs fechada, misturada em sedas e cetim, aroma alfazema , um pouco de alecrim que os meus olhos choram pela flor do monte que começa a nascer neste espaço pequeno (de gaveta de lingerie) sempre que a tua indiferença se mistura com ternura e num gesto de não crente, abençoas todos os lugares onde fomos felizes e entreabres um pouco a gaveta, só para que eu respire a liberdade ________________________________ e ceda à tua vontade.

segunda-feira

The sheltering sky



não sei porque nunca te disseram que o meu amor é como o chá no deserto, quente e tremendamente doce para que se entranhe em ti, nem que o tenhas saboreado apenas uma vez e se torne inesquecível como a cor dos meus lábios que sangram de tanto os morder para não gritar o teu nome.

quente para que te sintas fresco, mesmo que alagado em suor, sal e água num oásis que inventas para não me veres a chegar_______________devagar, de olhar enevoado e o corpo balançado na tempestade de areia com que arranho corações desprevenidos, apenas porque não me vês, por estar tão perto de ti.

a tua voz soa-me sempre a cascos de carvalho, em caves que pertenceram a tantas florestas onde és árvore única entre tantas, que me abraçam e me exigem afectos que distribuo com o olhar sempre que me enamoro das montanhas áridas. 

a paixão é então uma prece por atender, pois ignoras quantas vezes me adormeço a pensar-te e acordo a sonhar-te, mesmo quando dormes a meu lado, solto, indiferente ao emaranhado de braços e pernas que são dos dois, mesmo eu sabendo que somos apenas um. 

_______________________e é a tua alma embriagada, que viciada em mim, se perde cada vez que me encontra e entoa cânticos que o meu coração devora.

é então que me bebes ávidamente, mesmo sem teres sede.