sexta-feira

Free Fallin'




o sangue sabe a claves de sol quando a neve se derrete na boca, nos olhares e nos corpos em luta em camas desarrumadas pelos lençóis de linho que não amarrotam corações puros de inocência tardia.

culpa-se a decência escusa devidamente silenciada com respostas evasivas de raiva latente.

gestos de encolher de ombros caídos pelo peso do desinteresse egoísta. desdém irritante e arrogante que impele ao isolamento.

toma banho de chuva ácida, que obriga a escolha dum champô alcalino.

alinham-se letras em fila de números pares. a sedução paira entre os olhares fugidios e o charme discreto da burguesia com que se embriaga em cintilações de palavras que bailam nas pontas dos dedos, quando a música tem sabor a âmbar.

nunca é tarde para morrer de pé.

quinta-feira

In Perpetuum


soltam-se palavras de largada ou partida a canção com que embala sonhos (s)em destino o ardor do sal que engole em shots repetidos de virar o copo. um caramelo antigo, pegajoso, guardado no bolso da mala onde cabe o mundo, onde cabe tudo, menos ela, rendida ao espaço duma gaiola dourada, uma caixa de música, donde sai de quando em vez, num ballet blanc em simetria com o sorriso fechado com que decide casos de vida ou morte, ou apenas um concerto moribundo como o olhar vagabundo e anárquico que lhe exige não sei que respostas quando as perguntas são testes à paciência e aos limites de si.

enxuga a terra faminta da chuva intempestiva, galga montes e vales, suspira, respira, insiste, atravessa os rios gelados que a levarão ao percurso do gelo iniciado antes da era primitiva, antes dos sonhos serem factos e a imaginação realidade mensurável os cabelos adourados ao vento das marés de espanto, as palavras incisivas como punhais de madrepérola rasgando o organdi vestido de noiva ou reposteiros leves e ondulantes da casa de praia.

três camadas de verniz nas unhas dos pés cansados de suportar a energia da alma. lâminas que esquartejam fígados em vísceras conservadas em perfume que deixa manchas nas camisas de seda. aroma de sangue nos lábios e nas mãos o coração dividido entre a dormência e a ausência.

desliza suave a melodia com que esquece o pensamento. 
para sempre, em amor.

Decomposing Trees


sopra-se o beijo no prelúdio duma lágrima ensaiada em bailar nos olhos cegos de paixão. contorna-se o canteiro de flores com que os jardins de inverno recebem chás e poesia. mergulho o pensamento num deserto onde a música é poeira entre os dedos escorrida a quente. regresso ao bosque, desenterro raízes, visto-me de folhas e respiro seiva com os lábios tom de pérola. 
sabes onde descobrir-me, enrolada em mim, sabes onde fico presa, enredada em teares de seda pura, em sonhos devolutos e madrugadas de abril vermelho, o mesmo das papoilas que baloiçam ao vento que insiste em levar-me, nua, despida com ternura, de mãos cheias de chuva e pele alva de neve azul. a mesma com que me abraças à distância dum rio cor de mar e musgo. e então sorrio à dor que ainda não é morte. talvez sorte. de principiante, mesmo repetente. ausente, dúvida latente. dívida carente. fermento, adubo, presente.


sábado

Amnesia

Foto de Paulo MD


A dormência das retinas provoca a transparência do vácuo em que o corpo se move e morre, em pequenas picadas de seringas suspeitas de náuseos vómitos e esgares perdidos no tempo que (des)gasta o tempo sempre que a dor ultrapassa a velocidade do som e se mistura no trânsito em hora de ponta e a multidão anónima se apresenta incólume aos senhores de fatos cinzentos e de olhares murchos. os discursos ferem línguas sinuosas e as mãos dadas com a bandeira rodeiam parques infantis vazios de gargalhadas cristalinas. subo ao cimo de mim, espreito os sinónimos abandonados e sorrio no momento em que me encerra num esquecimento  de mim.

quinta-feira

Afterglow


hoje senti saudades tuas.

a chuva subiu pelas narinas provocando geada nos pés. encolhidos os dedos, a chuva continuou agora neve, nos cabelos curtos e mais ralos de ferrugem onde a fuligem dos comboios a vapor pincela telas de luz morta, ou apenas moribunda, dependendo da gravidade da água que agora desce para voltar a subir pelas pernas escolhidas pelos dedos encolhidos.
o senhor da farmácia fez uma careta à ingestão dos dois comprimidos, para que a dor parasse. a dor amenizou o corpo que buscava descanso e nem sequer toldou o pensamento, apenas fez esquecer a dor e é tão bom parar a dor, que do seu esquecimento apenas fica um suave mau-estar sem odor, porque se a dor fosse perfumada, nem morta me esquecia dela.

por vezes tenho saudades dos dias em que me passeavas, sem dores, pelos jardins da minha infância e da tua maturidade de homem imponente pela altura e pelo carácter.
a minha mão na tua, esmagada pelo anel de ouro com uma pedra azul. e eu perguntava-te porque não usavas aliança, se a mãe tinha. tu devias responder, mas algo sem importância, porque eu não voltava a perguntar e nunca percebi porquê. mas havia muitas senhoras que passeavam connosco, desconhecidas que ficavam a conversar contigo, sentadas no banco do jardim, enquanto eu me baloiçava, escorregava ou me rebolava na relva limpa sem dejectos de cães ou gatos, apenas joaninhas e lagartas pequeninas, alguns aranhiços e minhocas que eu encontrava quando tentava chegar, sem saber, ao outro lado do mundo. ou que se passeavam contigo e ficava eu no banco quieta, para não me perderes de vista.
parecias um actor de cinema e eras tão alto e elegante nos teus fatos sempre de alfaiate, nesse gesto de bater o cigarro na cigarreira de prata (que guardo entre tantas outras coisas) de acenderes o cigarro muito longo às senhoras desconhecidas (soube depois que usavam boquilha) esse gesto de me repreenderes com um olhar paralisante, sem precisares de dizer nada (e tanto que conversavas com as senhoras que a mãe denominava flausinas).
hoje lembrei-me de ti. e das festas que essas senhoras me faziam, eu a pensar que gostavam das minhas tranças até à cintura, ou do meu sorriso, mas tentavam apenas agradar-te, e tanto que o faziam, que por vezes te esquecias de mim e das horas e voltávamos à pressa para casa, tu no teu passo de homem alto, eu em pequenas corridas para te acompanhar, quase sem ter brincado nada.

os pés de neve derretem agora um pouco. e é salgada a chuva que me salta dos olhos, em pequenas gotas, sem subir nem deslizar, apenas em gotas que não me deixam ver-te.

quarta-feira

Fly



pálpebras semicerradas pelo consentimento ambíguo do espaço paralelepipédico com que me afloras o olhar cansado de aromas esterilizados e brilhantes das lãminas de bisturis em riste_____________________________e ris dos meus receios infantis da anestesia não fazer efeito e eu sentir tudo o que não quero saber, nem ver, sentir o que está dentro de mim, mas tão longe, para lá do infinito, mesmo sabendo os nomes dos orgãos dentro desta pele que ainda é minha, não os quero (re)conhecer, são imperfeitos na forma  e detestáveis na inconsistência. apenas o cérebro se abre em janelas de par em par, neurónios que atravessam o universo e se quedam perplexos com tantas ligações de comandos sem pilhas.
absorvo a intuição e_______________________________ voar é um caminhar flutuante sobre os picos de espuma deste (a)mar tão revolvido, no teu peito agitado que te desespera a espera, que te aborrece o sentimento, que te perturba a calma do teu deixares-te ir_____________assim como quem respira. quero tanto que saibas do meu amor não amestrado, que invento paragens no tempo, como quem se bebe a si próprio numa sede insaciável quando a fome é de ti.