sexta-feira

Ripley's Game



Visto-me de chuva ácida como a ferrugem que engole navios nas tempestades em alto mar, quando os rios transbordam margens, mesmo que a opressão seja apenas geográfica e os tremores de lábios, breves odores de mentol no corpo encharcado de água impura.

Sorrio na circunstância da música para os meus ouvidos, mesmo que a surdez seja o passo que antecede o autismo em que me encerro. Molhada. Pela tal chuva que brota da terra, em vez de cair como a gravidade impõe.

E vestida de chuva atravesso avenidas, sem andar pelos passeios destinados aos peões,  porque não ando, flutuo, pairando a cada sinal laranja, porque o verde e o vermelho são cores que ignoro, que misturo na cegueira de pretender ver para além do olhar. Estudas-me a silhueta outrora mais esbelta, agora corrompida pela ferrugem que começa nas minhas lágrimas que se soltam dos poros deste corpo que deambula, por vezes sem alma, neste corpo molhado de dor, porque a acidez do estômago escorre pelos esgotos desta cidade onde me perco, cada vez que te busco.