terça-feira

The Last Time I Left



sabe-me a sangue cada soluço de ar vítreo com que terminam os romances em fascículos representados no avesso do direito que rimam com o oposto do contrário por onde escorregam frases de palavras beliscadas pela tortura do amor debruado a ponto ajour no inverso do olhar, como quem tece solfejos de suores frios, penetrantes e escorregadios em golfadas de luzes de néon no abandono do corpo dormente pela velocidade de sedimentação dos sorrisos flutuantes.

não me deixo morrer assim, sem te amar outra vez.

sexta-feira

Ripley's Game



Visto-me de chuva ácida como a ferrugem que engole navios nas tempestades em alto mar, quando os rios transbordam margens, mesmo que a opressão seja apenas geográfica e os tremores de lábios, breves odores de mentol no corpo encharcado de água impura.

Sorrio na circunstância da música para os meus ouvidos, mesmo que a surdez seja o passo que antecede o autismo em que me encerro. Molhada. Pela tal chuva que brota da terra, em vez de cair como a gravidade impõe.

E vestida de chuva atravesso avenidas, sem andar pelos passeios destinados aos peões,  porque não ando, flutuo, pairando a cada sinal laranja, porque o verde e o vermelho são cores que ignoro, que misturo na cegueira de pretender ver para além do olhar. Estudas-me a silhueta outrora mais esbelta, agora corrompida pela ferrugem que começa nas minhas lágrimas que se soltam dos poros deste corpo que deambula, por vezes sem alma, neste corpo molhado de dor, porque a acidez do estômago escorre pelos esgotos desta cidade onde me perco, cada vez que te busco.

quarta-feira

Everything's Gone Green


secretos tons de abraços de ramos que inebriam olhares que derramam gritos mudos ou simplesmente folhas. a cortiça é virgem e o sobreiro resplandecente de orgulho inunda-me de sombra. apresso o passo para te acompanhar na queda de sorrisos que amansam a tarde plena de cores pastorais e aromas de esmeraldas que são toques do Verão passado, que ainda fervem na pele dourada pelo sal do mar que perfuma a tua memória.

a música é uma mão que me afaga o cabelo (cada vez mais curto e mais frágil) penteando sonhos que crescem como as dores de parto prematuro. assim a morte anunciada.

escrevo números de vezes que te sei. 
desenho encontros onde te dás em troca de mim, mesmo já não sendo eu, mas a minha sombra que me trespassa e ultrapassa para não te perder.

domingo

Close Your Eyes And ...


entre parêntesis as lágrimas são avenidas desertas onde ecoam passos de multidões furiosas pela ressurreição da Besta que atormente conquistas e afoga mágoas em vómitos alheios.
renovações em rostos inadequados (nos) passeios marginais e verbos irregulares são ri(S)os de máscaras incógnitas na lucidez apunhalada.

o amor é inevitável tal como a paixão das florestas virgens que saltam séculos de história(s) que se repetem e nunca são as mesmas.

murmúrios de vento ou moinhos, já nem sei bem, pois a febre das pétalas de mármore suicida instantes e paralisa gestos de nem sim, nem não. como o olhar que me ofereces a sorrir, apenas porque te recordo dias em que saudade era o teu nome aos gritos na pele a arder de ausência.

fecha os olhos, que eu fecho as mãos num perfume em forma de coração.
(en)canta-me músicas de espanto com que adormeço as noite sem dormir na espera que não sei aguardar.
surpreende-me de-va-gar mesmo quando és memória e eu cinza na terra onde florescem palavras que têm o meu rosto.

sábado

Fear of Flying


sinto os pés queimados pelo gelo que o teu olhar alcança no canto de pássaro ferido quando rasas a minha alma defunta no limiar da folha do carvalho com um coração marcado a setas, num amor atravessado a letras que o tempo empresta à paixão desenfreada da juventude.

olhares nus com que despes medos e soltas sorrisos ambulantes, abundantes, por vezes oxidantes, nas gargalhadas sadias com que inundas o firmamento mesmo quando raios laser desenham música nos teus lábios sem voz e me dás a mão só porque o infinito nos aguarda e a minha pele (te) sabe a nuvens frescas. 

espero-te com o cabelo mais curto, porque as dores não me deixam ter tranças. 

e nesta viagem sem hora marcada, sou abraço de vento na sombra da água que estilhaça  espelhos em direcção ao sol.